Dezembro 2012

December 1, 2012

Fera

Sorrio...
a despeito dos perdões não dados,
dos amores não correspondidos,
da tristeza da espera,
da ilusão da ânsia,
do consolo da esperança,
de todas as dores sofridas.

E Choro...
cada lágrima que cai me alimenta
de água salgada, salobra...
Água que não é doce,
que não perdoa,
mas  me adormece.

E durmo
na claridade daquele que espera,
que sabe não ser fera
e que só um gesto de bondade
a de findar todo o feitiço
de quem não nasceu para o grito

Mas não, não há de ser tão fácil
de acabar todo o cansaço
de um coração vindo de guerra...
belo, mas áspero,
confuso de tanto ser fera

Mas há, há de chegar o amor
talvez com receio,
talvez com dor,
de passos firmes ou reticentes
na dúvida de se quem o recebe é fera ou gente.

Mas, se é verdadeiro, há de vingar...
sem vingança, sem dor,
só de amar,
porque sabe que por traz de toda fera
tem um coração a sua espera.


Adormeces

já estou fechando os olhos,
mas a vontade de escrever
e chorar
me é voraz.

Come meu estomago,
as tripas,
o âmago,
me entristece os sonhos.

E sonho...
nunca mais ser feliz,
nunca conseguir o que sempre quis.

Porque tudo é vão.
São vãs as lembranças,
é mundano o sonho.

Pestanejo,
esqueço
até
que sofri,
que sei que nesses sonhos não hei de ser feliz.

Choro...
o choro do desconsolo,
do desassossego,
do nunca mais te vejo,
do nunca te conheci.

Mas, apesar disso tudo, estou bem, estou feliz...
sem ti.

Na verdade nunca te amei.
o minimo foi o que te dei.
Sonhasses um sonho
que não te proporcionei.

Adormeces, minha linda.
Sabes...
que nunca estive
e nunca mais estarei.

 

Sigo sorrindo

Preciso de uma dose de tédio,
talvez de um grama de choro,
para espantar as drogas mundanas,
que enrolam meu consolo.

Preciso de uma noite sem fim,
da qual só restem os jasmins,
flertando loucos,
no nascer do sol que aquece a mim.

E que toda melancólia
e maus momentos,
de sóbrios do sol,
se tornem fragmentos.

E se desmanchem no ar...
Como é bom respirar
toda ausencia,
toda tua não mais presença.

Estou de volta a mim,
fato que estou sem ti.
mas aprendi... a ser só,
ser alguém, sem nós.

E de encontro em encontro vou vinvendo.
Cada dia, cada vez mais podendo
gerundiar e fazer loucouras
cada vez mais absolutas.

E sem lutas
me entrego ao destino...
por inteira,
sem hinos, nem desatinos... 

Tento,
e cada vez mais, sigo sorrindo.

 

Ser poeta

Ser poeta é algo que não tem fim,

é choro,

é desabafo,

é uma linha,

um verso,

talvez nem mesmo um traço.

 

O poeta não consegue falar a dor,

que lhe acompanha,

sofre calado,

até o abismo é um marasmo.

 

sem asma,

sem insonia.

sem noite.

sem ansia.

 

só...

sofre,

engole,

e respira.

 

de tristeza vai dormir...

e deixa que a melancólia sem fim

bata

a sua porta,

que está aberta

e desperta

deixa

os sentimentos entrarem.

 

Escrevo

Escrevo
às vezes bem,
às vezes com medo
do erro
do acerto
do incerto
do mistério
do mundo novo que crio com os dedos
E como viverão tais criações?
Por quanto tempo existirão essas palavras?
Não penso
esqueço
tenho medo
do apego
do carinho
do chamego
do meu dengo
do meu nego
e nego
aos derrames sentimentais
a sede de confissões
ao uso de pontuações
a vontade de chorar
ante o desmascaramento das ilusões

Assim
escrevo
pra mim
um verdadeiro mentiroso
verdadeiro
que escreve
escondendo os medos

 

Sempre a mesma música

Sempre a mesma música
e a intervalos irregulares uma gota.
O tempo não anda,
mas os anos...correm.

Todos os dias um pouco do mesmo
gosto
sorvo...
o café
é amargo.

A noite é a mesma de ontem
e de amanhã.
Noite vã.  
mal dormida, mal sonhada, mal vivida.

Lamento pelo café amargo.
Sonhos com os anos passados.
Na boca o gosto do choro,
enquanto ouço...
a música, sempre a mesma.

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