Janeiro 2013

January 1, 2013

Devaneio

Devaneio,
alheio
a tudo,
mudo,
surdo
ao mundo,
afundo,
esqueço,
desapareço.

 

Prisioneira

Não adiantou o grito
-de sua voz inaudível-
As conversas com os íntimos,
as seções no analista,
o choro, a reza,
o passar do tempo
e o avançar da idade.
Passou a vida presa.
Acorrentada aos erros, aos medos
e aos traumas de um passado
que, de tão presente,
fez-se pedra, fez-se vivo, fez-se gente
e a manteve prisioneira
num vale cercado por cordilheiras.


Mão

Estralo os dedos,
menos um nó, menos um medo.
E essas mãos calejadas
de tanto desatá-los.

Sinto a palma puída,
por mais que passe a borracha,
os escritos sempre deixam marcas.

Entre os pontos e as vírgulas,
nas entrelinhas de minha mão
é que estão minhas feridas.

Mas, apesar do destino,
desenho sem desatino,
traço após traço,
as linhas de meus próximos passos.

 

Entre livros

Circunspecto
era seu aspecto.
Era todo consoante,
sua voz circunflexa
ecoava dissonante.

Nunca riu,
foi educado pra ser frio.
Denotativo,
respondia uma interrogação
sempre com um ponto de afirmação.

Até que um dia caiu do dicionário.
Desconcertado,
foi obrigado a viver noutro cenário.

Procurou o livro mais perto,
aquele que estivesse aberto.
Em suas páginas adentrou
e para sempre se modificou...

Divertido
passou a ser o seu tipo.
Se tornou todo o alfabeto
e sua voz afinada
por todos os cantos entoava.

Sempre ria
ao fim de uma melodia.
Conotativo,
todas as suas canções
tinham duplo sentido.

 

Perto de mim

Primeiro era o Branco
Então fiz uma flor,
Que logo se multiplicou
Num imenso jardim
de cor.

Ajuntei um céu azul-calmante,
Um sol de amarelo-radiante
Uns pássaros cor-de-flores,
Umas nuvens de algodão-doce
E umas estrelas elegantes-brilhantes.

Bem ao longe, surgiu inconscientemente
Uma casinha de música
Verde, da cor da grama,
De janelas laranja,
Feitas para quem ama.

Era meu casulo.
Meu mundo seguro,
Parar viver,
Para amar
E com meu bem compartilhar.

Então dobrei meus desejos,
Guardei no bolso e saí.
Andava assim,
com meus sonhos perto de mim.


A Baco

Sob a influência de Baco
disse a verdade:
"que não adianta disfarçar a ansiedade,
que maturidade não é questão de idade,
que sou verde sim, mas sou feliz assim".

E a cada "cale-se"
me enebriava mais.
Contei que minto, lamento, amo, sinto,
que sou cheia de dúvidas,
que ora sou inteligente, ora estúpida.

Mas de tudo o que falei, o mais certo meu bem
é que sou insegura.
Porém forte, como vodka pura.
E se te conto esses detalhes de minha personalidade
é porque bebi umas taças a mais de sinceridade. 

 

Apenas ando

Quando tropeço,
não faço gestos
de dor, dessabor, desamor.

Mesmo quando caio,
apressado me levanto,
sem prantos.

Sei que cada machucado,
pelo tempo,
é cicatrizado.

No mais, continuo andando.
Muda o solo, a paisagem, a idade,
apenas ando.

 

Sala de Espera

Insensatez.
Uma sala amarela, quadrada,
pessoas sentadas,
aguardo a minha vez.

Já não há mais fantasia.
Fileiras de cadeiras,
autómatos de cera,
espero na fila, sem melodia.

É tempo de vida seca.
Pessoas à espera.
Mergulho nos meus pensamentos,
a falta de alegria é o mal de nossa era.

-Não, não sente.
-Ação! 
Enquanto corres, escuto os primeiros acordes,
se acorda minha imaginação.

 

Era uma vez um poema

Era uma vez um poema vadio,
um tanto rude,
que não fazia planos pro futuro.
Não tinha ritmo, nem meta
afora o sentimento,
tudo, até a rima, lhe faltava.

Poema de quem escreve
sem estar no clima.
Incompreendido,
desalinhado.
não pela falta de terno,
mas pela falta de linho.

Poema que acabou largado,
ficou sozinho.
Vagueava pelas ruas cabisbaixo,
calado,
sem o vigor da melancolia
ou a falsa inocência da alegria...     

Era um poema bêbado,
pobre, sem dinheiro,
que não entrou pra nenhum livro,
não ganhou nenhum concurso,
passou a vida nas esquinas
e foi morto no escuro.

 

Em casa

Escuto os passos,
é o Passado,
que mandei embora.
Desce as escadas com raiva,
a madeira range,
o chão treme...
É o som da casa que esperneia.
Os móveis não compreendem,
os talheres se consolam,
os lençóis...respiram o último cheiro
do passado que não deveria estar presente,
que como tudo o que é passado
já nasceu ausente.

Escuto o bater da porta,
dou o último suspiro do alívio.
Silêncio.
Eu.
todos os ruídos são meus.
E assim permaneço,
dia após dia,
sou minha própria companhia.

Escuto uma batida na porta,
acostumada com a solidão grito:
"Vá embora".
-Sou eu, o Futuro,
acaso cheguei em dia obscuro?
Desço correndo as escadas,
abro a porta e digo:
"Não, entre, a cama está quente,
acomode-se e se faça presente".

 

ah! o mar...esse indeciso...

Ah! o mar...
esse indeciso...
que vai
e vem,
não sabe para onde vai,
nem de onde vem.
Está sempre em dúvida,
seja sob sol
ou sob chuva.
Ora é a favor,
ora é contra,
ora é calmo,
ora é agitado,
ora é sim,
ora é não.
Só me responde as perguntas
com outro ponto de interrogação.
E nessa dúvida de se recua
ou se avança...
deixa que o vento guie
seus passos durante a dança.

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