Junho 2013

Dia

Anoiteci Não percebi Fui me acostumando a falta de luz Tornei-me noite escura, Nua, fria, sem estrelas e lua. Abria os olhos e nao enxergava Eu era um breu Se andava, tropeçava Se falava, gritava Se ouvia, nada entendia. Amanheci Senti Pelas frestas entravam cores fugidias Me colorindo e esquentando Anunciando o novo dia. Desenterrei, Abri os olhos e enxerguei Eu era todo claridade Iluminava e coloria Em qualquer canto, em qualquer parte.

Na gaveta

Como abrir a gaveta a partir de dentro? Esta' trancada, Pelo visto não há ninguém na sala, na casa, No escritório ou no sanatório. E' dia, pelas frestas clareia a melodia... N gaveta papeis (contas, telefones, anotações, rabiscos), Lápis, caneta, uma calculadora, grampos, eu e poeira. Há quanto tempo estou aqui? Sem eira nem beira. Preso perdido. Fui esquecido? Sento, Pego um lápis, um papel E começo a escrever meus inúteis pensamentos.

Apneia

Foi uma chuva tão forte... Me levou todas as pedras, Me lavou todos os cortes E me deixou uma pneumonia... Levada pela ventania... Foi tanto Ar Meu peito começou a inflar E eu a flutuar Até quase alcançar o sol, Que muito afetuoso Deu um sopro caloroso E me devolveu ao lar... Me enrolei no lençol E continuei a sonhar.

Samba do sujeito

Sambava de mim, Cantava de mim, Ria de mim, Carecia de mim.... Mas para seu tormento Deixei de ser só mais um complemento De suas ações. Tornei-me sujeito, independente, Comecei a cantar Minha próprias canções. Sambo (sem você) Canto(sem você) Rio(sem você) Eu amo (sem você).

Balada da superação

Decidi... Você não vai mais me da bola. Não quero mais o seu carinho Que tanto esperei E você sempre me negou... Estou bem... Não ligo mais, nem levanto cartaz Não fuço mais seu nome nas redes sociais. Você! Já não precisa mais me bloquear, Mandar dizer que não está, que passe bem. Decidi... Você não vai mais me procurar, Vai dizer que esta outra, Sair com uma, beijar aquela, transar com todas. Vai me dizer que eu so fui mais uma E, na verdade, nunca gostou de mim. Estou bem... Pois sei que um dia partirás pro além. Só torço pra que seja bem antes de mim. Acompanharei o seu enterro, Pra ter certeza de que não tem erro... Levarei flores, me vestirei de preto, Direi sorrindo a ti, querido... Estou bem, Melhor agora Que me livrei de ti....

Balada do macho burguês

Às vezes em casa, Fazendo nada, Pensando nas duzentas amantes Mal-amadas. Contabilizo os corações Rasgados, pisados, Comidos, devorados. Me sinto tão querido e amado, Amargo, malvado, tarado? Não sei... Será que isso é amor? Não sei. Será que isso é horror? Não sei. Só sei que sou adulto, maduro, Responsável, Um cidadão civilizado. Pago contas, impostos, Tenho meu emprego Casa, mulher e filhos no colégio Carro, empregada... Uma vidinha bem burguesa Com cerveja, Pelada junto com a rapaziada.. E supermercado no final de semana. Tudo me parece tão bacana Que agora eu vou vê um seriado na tv.

Balada da volta por cima

Sacaniei, Conquistei sem nem mesmo querer, So pelo puro prazer... De ter E depois jogar fora, Ir embora E desprezar... Mas não te preocupes não, Sem mim não vais ficar, Nesse mundinho machista Sei que vais reinar. Não apele ó Flor, Curta sua dor. Eu já lhe contabilizei, Agora outra esta na vez. Eu sei. Adeus, bye-bye, Vou comprar roupas novas E me reinventar... Vou sair com outros caras, Dançar, dar risadas e com sorte transar... Acreditar noutras mentiras E assim, novamente tornar-me feliz!

Balada da barba

Eu já acreditei em muitas barbas nessa vida... Cerradas, falhadas, bem feitas, umas grandes, outras aparadas. E hoje estou aqui, Nem um bigode sobrou pra mim. Peço uma cerveja com muito colarinho Para sentir o toque de um leve bigodinho E relembrar das noites de amor... Do tempo em que tinha meu rosto arranhado E meus ouvidos carregados De mentiras de amor. Agora, depois de mais um abandono, A cerveja já secou meu pranto, Vou ser feliz e viver... Deixarei minha barba crescer!

De verde a podre

Na velocidade de uma lesma Deu a volta por baixo E conseguiu chegar ao local que estava Com 20 anos de atraso. Cansado do esforço, Nem notou que não era mais moço. Foi de verde a podre. Perdeu o tempo de maduro, Caiu do pé direto pro escuro. Na velocidade de uma lesma Afundou-se na terra, Deu a volta por baixo E chegou ao local em que estava Com mais 20 anos de atraso. Cansado do esforço, Nem notou que sua semente não vingou. E' que semente so' vinga onde tem amor. Secou. Morreu sem se transformar em flor.

Fim de espetáculo

Quebram-se os jarros Morrem-se as flores Enxugo minhas dores E' chegado o fim da comedia Por traz da cortina So, o cenário, o palco De mais uma tragédia Ao bobo Compete divertir o outro Ao outro Compete rir do bobo Mas a luz se apaga A cortina se cerra Cacos e flores no lixo! Nada se guarda O bobo desperta A cara esta limpa A peca termina.


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