Setembro 2015

Escrevo

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Escrevo para fugir da morte, para não depender da sorte, ou do sucesso que alimenta os egos. Retorno sempre ao papel, caneta, lápis ou pincel. Escrevo, desenho ou pinto, o que me foi dado como destino. Tento unir o futuro ao passado, Escrevo para restaurar os homens fragmentados.

Desconfiada

Sou feita da mesma natureza De que são feitos os seres desconfiados. Tenho pele de camaleão E olhos de coruja, Caminho apressada pelas ruas. Não confio em esquinas, Nem em portas abertas, Tampouco em coincidências do destino. Por via das dúvidas, Dou duas voltas na fechadura. Certa vez escutei um canto: Era a canção da bondade humana. A sereia que encatava Com sua boca infinita Os corações devorava. Não me oriento pela beleza do reflexo, pela doçura do discurso, Ou pela fragrância do gesto. Prefiro ser gato E manter os olhos abertos.

Rio morto

O cheiro de esgoto deste rio morto Invade a praça de alimentação. Onde comerei então? Que lugar será permitido? Estaciono meus pensamentos neste edifício. Muitas camadas de asfalto São necessárias para afastar o barro Que, sob meus pés, sangra As dores das carnificinas Testemunhadas pelas esquinas. Sob o fogo do progresso O homem prometeu o certo, Criou a águia da economia, Que devora seu fígado todos os dias. É meu sangue neste prato de porcelana. Minha alma vira lama. Sinto o gosto do esgoto E me vou com este rio morto.

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