Outubro 2015

Bailarinas de cerâmica

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Neste palco de papel opaco,

rodopiam bailarinas de cerâmica.

Paciente, espero o fim da dança,

anunciado pelo tilintar dos passos.

Executo meu ofício, recolhendo os cacos.

Lá fora, o homem guarda a chuva,

escurecendo o dia com sua sombrinha. Aqui, apago as luzes do teatro, finda a esperança do próximo ato. Noturnos à luz dos dias, avançamos sem avanço os pés presos no solo, o solo preso no cimento. Fragmentos de bailarinas no pensamento.

Monocromia

Mais um dia, tudo bem, tudo sem, monocromia. Monotonia cinza que me veste de asfalto. Paro na calçada, na espera de um sinal, do próximo passo. De vermelho, só os olhos pesados de tanto cansaço.

Poema diabético

Um poema diabético se origina do leite condensado, é trabalhado no chocolate e ao creme de leite é misturado. Um poema diabético é desprovido do sabor do brigadeiro, (pausa para um suspiro) do doce de leite, de goiaba, de jabuticaba ou do sorvete de queijo. É um poema sem palavras doces, cajuzinho, beijinho, moranguinho... Que vê perigo até nos diminutivos! Mas nem por isso deixa de ser salivante, aumenta imediatamente a glicose no sangue!

Dasdores

O mundo não é dos Sonhadores talvez seja Dasdores que passa todos os dias por essa calçada descalça. Tudo para ela lhe corre bem se é amargo, se arde, está sempre sem se queixar da vida, ou da sorte. Caminha como quem caminha pra morte Com passo certeiro, murchando as flores dos canteiros, Dasdores não engana, não teme, nem finge que ama.

Retratos de família

Procuro nos porta-retratos os destroços de meu passado, as magoas familiares, a ruína de todos os lares. Rostos que não dizem nada sorriem de minha desgraça, eternizando ficções, margarinas de emoções. É possível ler meu presente nas entrelinhas dos ausentes? Que gosto terá o passado de um futuro amargo? Em busca de sentidos, devoro as fotografias de parentes esquecidos. Memórias queimam no estômago. Na boca, um gosto ácido e uma ânsia de vômito.

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