ESCALA HUMANA

Sou mulher, mestiça, nordestina, tenho 1,68m, 37 anos, vivo e trabalho em Recife. Essa é a minha escala humana e é a partir dela que vivencio o mundo ao meu redor. Não é uma escala universal, é singular como todas as outras. Penso que cada corpa têm sua escala, enxerga o mundo por alguns filtros e métricas.

Este ensaio parte de uma situação que vem me incomodando. Em algumas ruas de Recife, andar na calçada começou a se tornar desconfortável para mim. Me sinto vigiada. Me sinto tratada como suspeita. Ao longo dos 37 anos de minha existência assisti lentamente os muros subirem, as câmeras de vigilância chegarem, as cercas elétricas serem implantadas e os edifícios residenciais ficarem cada vez mais altos.

Sob o signo da proteção construímos redomas medievais, condomínios, para nos protegerem do perigo, do suspeito, do outro, do que está do lado de fora, na rua. A rua, que já foi a do convívio, da cadeira na calçada, hoje é a do perigo, do medo, da desconfiança. Mas quem é mesmo que está fora do condomínio? E quando eu estou fora do condomínio, sou eu a suspeita?

Este ensaio não é uma resposta a estas questões, é antes uma tentativa de devolver o incômodo, a violência sentida, de redistribuí-la, de não deixar que ela me consuma.

I am a woman, mestizo, from northeastern Brazil, I am 1.68m, 37 years old, I live and work in Recife. This is my human scale and it is from there that I experience the world around me. It is not a universal scale, it is unique like all others. I think each body has its scale, sees the world through some filters and metrics.
This essay starts from a situation that has been bothering me. In some streets of Recife, walking on the sidewalk started to become uncomfortable for me. I feel watched. I feel treated as suspicious. Over the 37 years of my existence I slowly watched the walls rise, the surveillance cameras arrive, the electric fences being deployed and the residential buildings getting higher and higher.
Under the sign of protection we build medieval bell-houses, condominiums, to protect us from the danger, the suspect, the other, of what is outside on the street. The street, which once was the street of the chair on the sidewalk, today is one of danger, fear, distrust. But who is really outside the condo? And when I'm out of the condo, am I the suspect?
This essay is not an answer to these questions, but rather an attempt to return the nuisance, the felt violence, to redistribute it, to not let it consume me..