Agosto 2015

August 1, 2015

Como dizer o não dito?

O doce na geladeira escondido.
O desejo contido.
O vulto passageiro.
Ou o arrepio dos pelos.

Por isso sonho.
E meu sonho é recheado de caramelo.
Na frialdade do real,
é difícil o amarelo.

É que quando a luz está acesa,
os vapores se dissipam,
os gatos fecham os olhos
e os homens passam.

 

Na sala de espera

Todos assistem à TV.
Estou ausente,
ninguém me vê.

É porque não me conhecem
assistem à TV
e envelhecem.

 

Calmante

Alma
com
Amante

Calmante

 

Tragédia grega

A caneta no papel,
o toque dos corpos,
o som dos corvos
o despertar do céu.

O lamento é dos sofridos.
Só enxergo gemidos.
Ensurdecedor é o drama humano,
sempre o mesmo através dos anos.

Me traz amparo a tela do cinema.
-Não, não estou nessa cena.
O espetáculo em que atuo é outro,
nessa poltrona, ocupo meu posto.

Passou! é o momento dos agudos.
Meus olhos estão cansados, apenas escuto
a gravidade das emoções e movimentos,
estamos todos atentos.

Tenho a certeza de que somos animais,
amamos demais.
E, sem mais, vamos vivendo
como quem no papel segue escrevendo.

 

Raiva

dos vidros estilhaçados
dos abusos do condomínio
dos dias de domingo

dos copos quebrados
dos amores silenciosos
dos dia pantanosos

da torneira que pinga
da pinga que não anima
da vida que desatina

 

raiva

havia

raiva

na via.

 

Refluxo

O concreto cai no carro.
Avanço mas não te alcanço.
O gato mia exigente.
Estou atrasado.

A velocidade da vida me dá nauseas.
Passageiros, ao longe te reconheço.
Os papeis somem da mente.
Perdi o compasso.

Vidro pra todos os lados.
Falta tino a nosso destino.
A raiva se aproxima dos dentes.
Qual o próximo ato?

Nos refluxos do caminho,
Sigo sozinho.
É que o chão é degelo.
O dia está claro, esqueço.

 

Azedo

Tomo um cafezinho.
Aprecio o gosto imperceptível das diferenças das torras dos grãozinhos.

É hora do almoço.
No meu prato esqueceram a carne, só botaram o osso.

Tenho de voltar ao trabalho.
Não sem antes mastigar um dente de alho.

Pausa para um brigadeiro.
Lembro dos romances que vivo no travesseiro.

À noite amargo o livro, amarga a TV.
Amargo ser.

É Dia!
Rima com Alegria!

Escovo os dentes no banheiro.
A pasta tem um gosto azedo.

 

Noturno

O frio da espinha.
A água que goteja.
A lâmpada acesa.

Os dentes a ranger.
Os sons que não escuto.
O gosto do refluxo.

O chiado da TV
A falta de perspectiva.
O beco sem saída.

O inseto no banheiro.
O tombo na floresta.
O fim da festa.

Um pio de coruja.
Um olhar amarelo de gato.
Na janela, um sapato.

 

Rua do Imperador

Impera-dor,
tuas esquinas refletem meu temor.
É que meus olhos estão a amargar.
É noite, tuas calçadas viram lar.

Percorro teu calvário,
paro no sinal vermelho,
observo teus rostos pelo espelho.
O sinal verde é implacável, sigo solitário.

Noturnos, somos todos invisíveis,
sejam homens frívolos ou sensíveis.
Dos emparedados do convento,
aos vivos nu vento.

O eco do vazio de teus prédios
me tira do pensamento o tédio.
Sonho teus dias de grandeza,
escondidos sob camadas de tintas espessas.

Acordo pelo silêncio opressor de tuas portas fechadas.
Só restou calçadas.
O passado está morto.
É noite, sigo absorto.

 

Bem-me-quer

Ele foi o meu primeiro amor,
meio-dia de calor,
mas a timidez foi mas forte,
com ele, só as outras tiveram sorte.

Ele foi o mormaço da comodidade
ou questões mal-resolvidas da idade.
Não o quero mais por perto,
foi o que por mais tempo deu certo.

Ele me mostrou nossa árvore
e disse "me devore".
Foi um touro animal,
derrubei sua árvore com cal.

Ele me cantou num show
fomos rock-and-roll.
Aventuras de amor ao infinito,
Seu jardim era um agito.

Ele me tirou pra dançar,
eu  só queria amar.
Me fez sua amante, sua amiga,
sequei sem lágrimas nem brigas.

A ele lhe quero bem
bem-me-queres também?

 

Guararapes

Da parada pro colégio,
Do colégio pro trabalho,
Do trabalho pra faculdade.
Andei, esperei e atravessei em todos os pontos da Guararapes.

Do sebo, onde comprava livros do professor,
Dos Correios, de onde colecionava os selos,
Das filas de Sítio dos Pintos, Torrões, Monsenhor Fabrício, Roda de Fogo, etc.
Em média 45 minutos de espera.

Do happyhour do expediente,
Do Savoy, onde cantei quase em inglês,
Do Destaq, onde as saideras não tinham fim,
E ônibus elétrico! foi delícia e foi tormento para mim.

Dos dias que antecedem o Galo,
Dos apitos de cocoricós,
Dos coloridos de carnavais.
Guararapes a pé pra nós!

Dos sapateiros, livreiros e pipoqueiros,
Do algodão doce e da água coco,
Dos vinis, santos, rosas e panfletos
- Aceito vale A, vale B, vale C, ticket ou um beijo!

Dos prédios vazios,
Das paredes descascadas,
Das festas noturnas escondidas,
Aventuras loucas de idas e vidas!

Do tarado do ônibus, do ladrão de celular, dos cheira-colas,
Dos pedintes, dos mendigos, dos loucos diversos,
Do grito, da bolsa apertada no braço, da carreira, dos conselhos.
Essa parte nunca esqueço!

Do banco às bancas de jornais.
Dos contratos aos noticiários.
Do trabalho  ao passatempo.
Fudidos, achados e perdidos, todos unidos!

Das chances de mudar de vida às filas pra pagar a conta.
Da cópia do documento à falta de monumento.
Do artesanato ao quiosque mais barato
Tudo aqui segue um compasso

Do passo
Da pressa
De quem atravessa
sem desespero
no sinal vermelho
sem medo da morte
pois confia na sorte
e reza
pra chegar no endereço
Guararapes
Eu também envelheço!


Quem são os isentos?

No aniversário da falsidade

 

Encontrei todos os felizes da cidade

Entre um brinde, um sorriso e um abraço

venenos melando os braços.

Um gole para o não dito,

Na boca o desejo de mandar todos ao infinito.

 

Mentiras de porta-retratos,

Mentiras de internet e TV

Mentiras pra vê, lê e ser.

 

Entre um chope e um caldinho de feijão,

beijo e sinceros apertos de mão,

tento me adaptar ao mundinho 

miseravelmente humanalzinho

Mas, aqui pra nós, não sei por que tento...

Se somos todos isentos.

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